quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Um pouco da chuva sempre fica na gente.

Francine é nome francês. Francine é rosto árabe. Sobrenome italiano. Álbum de fotos globalizado. Sorriso mudança-climática: derrete tudo que houver, com o perdão da infâmia. A Francine chegou em uma cidade que ela não conhecia, para me deixar, deixar eu e o Cássio, em uma cidade que sempre foi mais dela do que jamais será nossa.

Nós na festa mais bombada ever. No sentido de Gaza.
Ela transformou um laço frágil, laço de nacionalidade e de uma faculdade detestável, em uma corrente de prata bem firme, daquelas dos heteros porto-alegrenses de quem eu sinto nojo, mas dessa nossa corrente eu gosto. Gosto e coloco todos os dias no pescoço, nas fotos das viagens, no calendário. Uma corrente de risadas, chás de romã, chás de torta de limão, chás de menta no Marrocos, chás no Starbucks em vez de assistir ao Gre-Nal. É que água fervente mata tudo que houver, e nós duas tínhamos memórias para ser queimadas. 

Como uma estranha e pequena tribo, estou vinculada à Francine pelas fogueiras que acendemos juntas para esquecer quem a gente achou um dia que era fortaleza - mas eram só gravetos inflamáveis. A Fran me curou do mais doentio de mim, e me curou das minhas febres, das cólicas, da saudade de casa. Foi embora para que eu soubesse que para algumas coisas não há cura - só o tempo mesmo. Tempo que com ela voou, e nós voamos também. Voamos de Ryanair, voamos de camelo, voamos de carro do Ludo pra Brest, até que ela voou de volta pro Brasil. E do voo ficou o vento da Bretanha, a lembrar que todo sorriso é retorno.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

La Bretagne, c´est super.


Oi, gente, lembram de mim?

Preciso atualizar. Então que depois de mais um findi gats em Paris, foi a vez do Marcelo e da Amanda (e a Mô em coração) virem aqui pra Bretanha.

Dia 01: comer uma verdadeira galette bretã e beber.

Dia 02: conhecer Rennes, fazer yakissoba pra galere e beber.

Dia 03: Marché des Lices, galettes saucisse original e Saint-Malo.

Dia 04: Parc du Thabor, ópera e despedida dos dois, pobres coitados rumando a um mochilão na Europa.

Sem vontade de detalhar, deixo fotos:

Inesquecendo Paris com eles.


Revanche: Marcelo e Amanda na terra dos piratas


Saint-Malo, onde o frio também é pirata.



Orgulho de ser brasileira: banca no parque de diversões em Saint-Malo.

Aniversário da Mich, que não sei porque coloquei aqui.

Bretanha, o paraíso dos cataventos.

Tem seu charme.

Minhas azeitonas preferidas do Marché des Lices.

Saint-Malo, refúgio da Mechas de Sangue.

Vou fazer galettes pra vocês na volta.

Bretanha, pourquoi pas?

République, a Champs de Rennes.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Rennes.

Eu e Rennes temos uma relação complicada. Rennes é absurdamente linda. Suas ruas são elegantes, pedaços que testemunham uma França católica que não existe mais. Suas casas de pedra são pequenas fortalezas, e há ainda um muro romano às ruínas por aqui. O mercado aos sábados, em pleno céu aberto, é lindo, vivo, colorido, e dá pra comprar as melhores azeitonas e os melhores iogurtes do mundo. 

Mas Rennes não é Paris, e aí a coisa complica. Porque ser Paris significa ser a cidade mais absolutamente fantástica do mundo. Ser Paris significa ter sentenciado o absolutismo à morte, ser Paris significa abrigar Picasso no Bateau-Lavoir, ser Paris significa que cada Presidente te lega um complexo cultural absurdo, do Louvre ao Pompidou. 

Ser Paris significa ter a République viva, o Point Ephémère às margens do Canal St. Martin pra tomar uma ceva tentando adivinhar a que se refere o poema na parede. Ser Paris significa arte. Arte dentro dos museus, arte nas ruas, arte em cada Space Invader, e são tantos. Ser Paris significa o apartamento acolhedor da Mô e do Marcelo, sempre sorridentes e queridos emprestando toalhas e ligando a calefação. Ser Paris significa também a casa linda do meu casim parisiense, cheia de obras e máscaras indianas e quadros e mais quadros e livros e a cama mais confortável do universo e as saladas absurdamente deliciosas que ele faz e o jeito como ele pula da cama pra espremer suco de laranja porque eu tô doente. 

Ser Paris significa ser elegante, ter os mendigos mais autênticos ever, significa linhas de metrô de fácil compreensão. Ser Paris significa ser dividida ao meio pela Sena e unida aos pontos por tanta gente tão completamente diferente. Ser Paris é a Alyson nos recebendo pro Natal, com o Charles en train de chercher bonheur pra todo mundo, trazendo o vinho aberto. É a árvore de Natal com cheiro de pinho decorada por uma família judia para que os brasileiros não ficassem abandonados sem família no Natal. Ser Paris é ser tanta coisa por tantos lados. É conhecer cada arrondissement, e ficar procurando um quarto para alugar com o Monsieur Hervé. 

Ser Paris é ser o centro cultural do mundo. Falem o que quiser, Nova Iorque jamais vai desbancar o charme e a imponência parisiense. Ser Paris é achar enfadonho o borbotão de turistas na Champs durante o Natal, é terminar as refeições no queijo e ir de vez em quando no McDo, mas sempre falar mal depois.

Ser Paris é recomeçar todos os dias uma história de tantos séculos e tantas Repúblicas e tantos discursos de Jaurès e lutas de Jules Ferry pela laicização. Ser Paris é ter uma pista de patinação linda à frente do Hotel de Ville. E tanta neve e tanto frio até que lacrimejem os olhos. Porque é certo, em algum momento, Paris te fará chorar. Se não de frio, de emoção.

E mesmo quando eu tento falar de Rennes, acabo em Paris. 

Quando eu tento gostar de Rennes, é sempre tarde demais: sou irremediavelmente apaixonada por Paris.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Yalla, yalla!

Tenho um problema recorrente: não consigo escrever sobre as coisas que me marcam demais. Poucas vezes escrevi sobre meus melhores amigos, e quando falo de relacionamentos, é mais ficção honesta que confessionário. Podia culpar a falta de tempo, mas não, foi exatamente por isso que ainda não consegui, e talvez ainda hoje não consiga, falar da minha viagem ao Marrocos. 

apanhei decorando esse alfabeto. mas vale a pena.
A medina de Fès, a maior do Marroco, é indescritível. É tão humana, caótica, com vias estreitas, caminhos que se confundem, pessoas que se confundem, cheiros que se confundem, mais gente, mais caos, mais vias, mais caos que se confundem.

Ela tem 400 e poucos hectares, ou talvez isso seja uma grande mentira, não lembro direito das dimensões que o guia disse, mas, vão por mim, a coisa é gigantesca e diferente de tudo que já se viu em matéria de redenção no domingo.

Saudades já.
 Depois de Fès, fomos pra Mèknes, a cidade inesperadamente linda. É onde há a única mesquita aberta ao público não-muçulmano, e o lugar é lindo e pacífico, vontade de ficar lá o dia inteiro. Sério, todas as pessoas que gritam contra a construção de mesquitas deveriam visitá-la. Quase quero uma na minha casa.

Na verdade, estávamos por Mèknes somente de passagem, queríamos chegar a Volubilis, uma cidadezinha onde há ruínas romanas. Mas fato é que Mèknes nos coaptou. Passamos o dia, sem notá-lo, por lá, e teríamos passado mais um, se não tivéssemos reunião pra decidir se passaríamos ou não três dias viajando pelo deserto.

Kazbah do séc. VII.
 Já é óbvio, até porque já contei pra cada um de vocês, que fomos. Fomos com Bakkali, o melhor guia do mundo. Um berbéri querido, atencioso e engraçado, que parou no meio da estrada pra colher tâmaras pra nós, porque horas antes a Fran tinha comentado que as adorava.


o sol estava quente e queimou a nossa cara. Alalaô.
 Andar de camelo sob o céu do Saara foi tão incrível que usar a palavra "incrível' para descrevê-lo é absurdamente ridículo. Não vou fazê-lo. Imaginem o céu mais estrelado que vocês possam. 

Erraram feio. É bem mais.

the monkey on your back is the latest trend

Aqui foi o primeiro lugar onde paramos, e no Marrocos até os macacos tentam te passar a perna, são muito mais espertos que os esquilos londrinos, que conseguimos enganar fingindo ter comida. Os macacos marroquinos, nada.

Prometi pro Bakkali que serei a primeira taxista mulher do Marrocos.
 Mais esperta que macacos marroquinos, no entanto, tomei o volante para me tornar a primeira taxista mulher do Marrocos, para as gargalhadas do Bakkali e o terror do Cássio e da Fran, que não queriam nunca que eu aumentasse a velocidade.

Opressor é o vento, não o véu.
 Sério, pessoalzim, véu é super cool. Juro que acho mil vezes pior colocar um biquíni que um véu. Não sei qual dos dois é mais opressor. Pros meus XXXXXX quilos, fico com o véu. Assim, ao estilo berbéri.

Sim, abusei do véu. Queria entendê-lo.
 Ou assim, também. Sério, fui mais respeitada de véu, as pessoas vinham falar comigo em árabe e quando eu dizia um "Là!" (não) firme, os vendedores/mendigos se afastavam, o que não acontecia sem o véu. Além disso, ele protege mesmo do sol, e esse, que eu comprei em uma cooperativa e foi feito artenasalmente, convenhamos, é muito gats.

OCIDENTAIS MALDITOS NÃO TIREM FOTOS DA GENTE.
Viajei por quatro horas e quatro séculos de distância até o Marrocos, sem contar Marrakesh. E a experiência foi ótima, como o chá de menta, obscenamente doce, ainda assim, por vezes amargo. Um chá que muda conforme mudam as paisagens do Marrocos, e eles mudam bastante.

Marrocos é um país cheio de temperos. Cheio de areia, cheio de oásis. Eu me tornei mais um de seus grãos.


domingo, 5 de dezembro de 2010

Neve outonal.

Eu fingindo que não me me importo em ter esquecido as luvas.
Na foto, eu o Cássio e o Cheon, um coreano adorável que tem pantufas da Hello Kitty e um cabo usb em formato de coração, quem, aliás, tá indo passar as férias no Brasil.

Então, apresento pra vocês o Marché de Noël de Rennes, ou seja, um apunhado de comerciantes tentando vender bobagens a preços exorbitantes. Mas tem vinho quente, e o Hendrik, um alemão cool, tinha rum numa garrafa de água no casaco (oi?), aí tomei vinho quente com rum.

Sou alcoolatra? Nops, mas tinha esquecido as luvas, e meldels, a Bretanha é ótima em ser congelante. 

Mas agora tenho uma bota forrada quentinha. Sou muito mais feliz.

No mais, vou voltar pros meus 876544 trabalhos da semana. 


domingo, 21 de novembro de 2010

Quantas viagens eu devo? - Parte 1.

1. England, I´m afraid.

Vou deixar a rainha de lado. Pecadora que sou, afirmo apenas que tomei muito chá inglês no STARBUCKS. Que mais?

Leti fingindo que vai entrar no palácio.


Ok, do começo. Então que chegamos (por "chegamos", claro que quero dizer eu, o cassim e a franzitcha) e numa das lojas do freeshop fomos recebidos por um inglês de turbante que riu e brincou conosco, recém saídos da França. Foi um choque. Dos bons.

Então que a Inglaterra é tanta coisa ao mesmo tempo, ser inglês hoje é algo tão multifacetado e plural que parece imbecil escrever sobre "A Inglaterra". Elas são muitas e múltiplas. Por que isso é tão impressionante? Basicamente porque estou morando na França.

Deixa eu explicar: sabe quando você lê aquela reportagem falando das muçulmanas ESTÚPIDAS que vêm para o PARAÍSO DEMOCRÁTICO que é nosso tão bem-estimado Ocidente-Cristão-Que-Matou-e-Escravizou-Todo-Mundo-Que-Podia, mas daí que você lê que elas vêm e continuam usando seus véus opressores e continuam pregando sua religião idiota opressora?

Pois bem. Eu faria exatamente isso no lugar delas. Ao menos na França. Porque na França um estrangeiro será estrangeiro por cinco gerações. Só é francês quem compactua com todos os valores franceses. Então que se eu fosse muçulmana e chegasse aqui, seria tão mal-tratada, tanto e tão mal, que eu cuspiria nos Valores-Democráticos que são usados como pretexto contra mim, que servem para me rotular de incompetente e retardada, que me obrigam a tirar o véu porque ele não é fashionable no momento.

E por isso o estranhamento. Na Inglaterra, nota-se de longe que o cara de turbante 1) está trabalhando no aeroporto (jamais vi isso em lugar algum na França); 2) se for questionado, com certeza ele dirá que é inglês; 3) ele se sente inglês e incluído dentro do sistema inglês.


cupcakes: bonitinhos, mas ordinários.
É inacreditável. As garotas muçulmanas saem de véu e tênis e super arrumadas, ninguém as olha de cara fechada; os indianos abrem seus restaurantes, os chineses têm uma Chinatown linda e, para os mais tradicionais, os cupcakes sobrevivem à globalização. Todo mundo que está legalmente na Inglaterra é inglês. Claro, uns são mais ingleses que os outros, mas na França não há essa gradação: ou é baguete debaixo do braço, ou nada.

Falando nisso, esses dias meu amigo palestino estava me contando que estava sentado em um café, quando um cara estacionou seu carro, foi até ele e seu amigo tunisiano e mandou que eles se levantassem. Claro que eles não se levantaram. Mas é o tipo de coisa que dá vontade de retrucar com um bom chute. Mas aí que o cara afirmou, embora seja uma provável mentira, ser policial. E aí que tu está tomando teu café numa boa e qualquer um vem ser xenófobo louco. Claro que a vontade de dar um soco é imensa. Mas, lembrem-se, na França, se um estrangeiro der um soco em um policial, graças às novas medidas de Sarkozy, ele volta na hora pra casa.

Claro que eu sou contra agressão física, porque dizer isso é politicamente correto, e o contrário faria vocês pensarem que sou uma fascista, mas que, comparado a atos xenofóbos, um tapinha não dói, disso não discordo mais, depois dos meus três meses franceses.

Mas voltando à Inglaterra (espero que logo!), é um país incrível. Para ser simplista, é os Estados Unidos com cultura. Os Estados Unidos que leram e tiveram conversas filosóficas tomando chá. E aquele sotaque. MELDELS, o que é aquilo? Fazer o inglês soar como uma língua de verdade, e não como um amontoado prático de regras que formam um idioma feito para o corporativismo, sem desperdícios com tempos verbais elaborados ou lirismos na fonética.
Les Misérables: como eu me senti com meu poder de compra em Londres.


Ainda mais: não fosse a libra esterlina e sua conversão assustadora com o real, fazer compras na Inglaterra seria a melhor coisa do mundo. Em matéria de livros, de roupas, de cosméticos, de TUDO QUE VOCÊ PRECISA, a terra da rainha sabe o que está fazendo.

E, é claro, falta falar da parte GLAMOUR TOTAL da viagem: O Fantasma da Ópera, no teatro da sua Majestade.

Retrocedendo um pouco: Eu e a Fran compramos os ingressos há milhares de anos. Compramos vestidos chiquérrimos e tudo mais, para irmos em Grande Estilo ao teatro.

Voltando à viagem: não deu tempo de trocar de roupa, então ignoramos nossas roupas chiques e fomos como estávamos. Mas, lembre-se, ainda estávamos limpas e tínhamos dignidade humana.

Mas eis que, descendo para pegar o metrô, os alarmes soam e somos evacuados da estação. Um atentado terrorista em Londres!

Mentira. Pensamos que fosse isso, mas no fim foi só uma mulher que se matou se atirando nos trilhos do metrô. Puta egoísmo daquela vaca. Graças a ela, atrasamos pro Fantasma.


eu antes de saber que chegaria fedorenta e suja no Fantasma.
 Quer dizer, quase atrasamos.

Depois de uma meia hora preciosa gasta tentando achar um ônibus que fosse pra lá, caminhamos até a próxima estação de metrô (até aí, ainda achávamos que se tratava de um atentado, logo não fazia sentido ir pra outra estação de metrô, que estaria fechada também), que estava aberta. Pegamos o último metrô antes dela também ser fechada, e chegamos  em tempo.

Mentira de novo.

Corremos. Corremos muito. Corremos por cerca de 20, 25 minutos. Por meio de ruas, atropelando pessoas, esbaforidos. Mas sim, chegamos cinco minutos antes do espetáculo começar.

Não somente sem os vestidos chiques, mas suados, esbaforidos, podres, descabelados. Um luxo só.

Aí que fui encher as garrafinhas de água no banheiro e fazer xixi (sou RHYKA) e, quando voltei, fui barrada: eu não poderia sentar no lugar que eu tinha comprado há meses, bem no meio, o lugar mais perfeito entre os lugares baratos.

Admito: chorei de raiva. Chorei tanto de raiva que a mulher ocasionalmente me deixou sentar lá. E foi assim que vi uma das experiências estéticas que mais me emocionou: suja, fedorenta, descabela, suada em um teatro luxuoso assistindo a um musical em Londres. O melhor desfecho para uma viagem fantástica.

qual o valor de uma lei assinada com o sangue de quem se opõe a ela?
Por que, no entanto, estávamos na Inglaterra? Ah, sim, para um congresso em Oxford sobre a anistia brasileira. Então que Oxford é absurdamente charmosa e elitista e linda. E o evento foi maravilhoso. Tanto como experiência pessoal, ouvindo o relato de quem foi torturado pelo regime ditatorial, como pela experiência acadêmica, com professores maravilhores, com o pessoal da Comissão de Anistia e também, é claro, pelas pessoas que conhecemos.

Pois que foi isso. Aí que teria sido a viagem perfeita, não fosse por um detalhe: era apenas metade da viagem.

Um dia depois do Fantasma da Ópera, embarcamos. Embarcamos para o Marrocos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Ao meio.

Ponte em Liège
Trens na Bélgica se separam ao meio. Pois é, pegamos o trem Namur - Liège, felizes com o turismo recém-feito e o turismo vincendo em Liège. Aí é que enquanto eu ouvia música e a Fran dormia, Cássio escuta: Dinan - TERMINUS.

Dependendo do vagão onde você estiver na Bélgica, parará em um lugar diferente. 

Não é só isso.

Dependendo de onde você estiver hoje na Bélgica, talvez pare em um país diferente.

Então, primeiro passo, O QUE É A BÉLGICA?

Namur: a cidade que resistiu bravamente a Louis XIV.
Assim, a Bélgica é o Uruguai europeu. Lembram das aulas de história? "O algodão entre dois cristais", um país feito para acalmar as rivalidades brasi-portenhas e tudo mais? Com a Bélgica é a mesma história. É um país de criação totalmente artificial, um pedaço de França, um pedaço de Holanda e um pedaço de Alemanha sob a mesma bandeira. Foi, então, um país inventado para amortizar os ânimos das Revoluções de 1830 e 1848. Nesse período, a atual Bélgica vai se rebelar contra a Holanda e ser um Estado próprio.

..mas que foi tomada por ele no final.
Esperaê. O que a Bélgica estava fazendo na Holanda, meldels? Culpa, é claro, do Congresso de Viena, que a tinha anexado à Holanda em 1815, ainda que entre belgas e holandeses as disparidades culturais fossem evidentes. Assim, com o suporte militar francês e a aprovação inglesa, a sublevação deu certo e a Bélgica tornou-se uma linda monarquia constitucional.

Mentira. A Bélgica continuou sendo o que sempre foi: um punhado de várias culturas e idiomas, mas com unificação tributária e um rei para gerar assuntos em comum entre os belgas. E, é claro e fundamental, bom chocolate. (Destaque para o chocolate branco de pistaches). 

Charme: a Bélgica tem.
Charme: a Leti não tem.
Só que cada região belga possui características próprias e mais assemelhadas a uma determinada cultura. Por exemplo, na região francesa, o Estado-providência francês é modelo e parâmetro; já na parte de Flanders (nordeste da Bélgica, basicamente), o sistema assemelha-se mais ao liberalismo holandês. Fica difícil governar assim. E tanto isso é verdade que agora os governos caem como no declínio do Império Romano. Um atrás do outro. O Rei Alberto, que jamais em sua vida tinha tido algum papel político outro que ser capa de revista, agora está desesperado, como os franceses ficam quando pensam em ter de trabalhar. Os ânimos entre a região francesa e a região de Flanders estão carregados.

No entanto, a região francesa está mais pela conversa e resolução dos conflitos, enquanto Flanders quer mesmo é separar-se. Isso porque os belgas-franceses são acolhedores e curtem os amigues de Flanders? Quase.

A região francesa está economicamente estagnada, embora Liège tenha sido a primeira cidade europeia a industrializar-se. Enquanto isso, a região de Flanders cresce, embora sinta-se refreada pela região francesa e sua alta cota de providencialismo estatal. 
Se eu fosse Louis XIV, pegava Namur pra mim também.

A isso, some-se o fato de que o pessoalzim do holandês, todos eles falam francês, e isso seria uma das premissas: de que em cada região cada habitante, embora falasse a sua língua, soubesse a outra. No entanto, na região francesa, não há quem fale holandês. De longe, parece pouco, mas no fim das contas, no cotidiano dos outros, é esse tipo de coisa que importa. 

A piada que o Bruno (aka irmão extraordinário do Cássio) contou, revela bem o clima: no hospital, ouviu de um dos pacientes que ele "viaja com o ar-condicionado ligado e as janelas do carro abertas, para ver se o aquecimento global inunda Flanders e a Holanda." E há também o médico que, falando para sua paciente que ela deveria ser reembolsada pela gasolina gastada pelas idas até o hospital (países europeus desenvolvidos!), mesmo pelas viagens já efetuadas há um tempo, viu o espanto dela, e então retrucou: não tem problema, os flanders estão pagando!", ao que os dois caíram na gargalhada.
art nouveau

Gentchy, Bruxelas é a capital da União Europeia. E não pega bem que o país da capital da união de todos os países esteja em vias de separar-se. Sem contar que isso pode pegar mal com o pessoal da Catalunha e coisas assim. É difícil que a situação agrave-se a ponto de uma real separação ocorrer, mas isso põe definitivamente em xeque essa aclamada união europeia, expondo de maneira quase anedótica sua fragilidade e ficção. 

Mas das coisas boas e interessantes:

Gramado.
Bruxelas é uma cidade extremamente charmosa. É indiscutivelmente a capital da UE, vez que abriga em si uma comunhão de elementos franceses, holandeses, mesmo alemães. Há momentos em que se pode jurar estar caminnhando por Paris, outras horas por Amsterdã. Mas sempre há, no entanto, um elemento distintivo, algo que aponta que não, aqui é Bruxelas. 

É provavelmente uma das capitais mais heterogêneas da Europa, o que a faz única, embora permeada de uma sensação de familiaridade recorrente, de "já vi isso antes quando estava em ...". A parte art nouveau da cidade é de aterrorizar os arquitetos modernosos, absolutamente incrível. 

E há também os belgas. Que em comparação aos franceses, são o povo mais gentil do mundo. Eles te "tutoyam" (verbo tutoyer - utilizar o "tu" na fala). Na França, jamais fui tutoyada na vida por agentes de trem. Fiquei surpresa ao ver isso acontecer na Bélgica. Uma boa surpresa.

A isso, acrescente-se a gastronomia maravilhosa, de moules (mexilhões) com batatas fritas ao melhor chocolate da história. 


 Deixo umas fotos.

E depois de amanhã vou pra Londres. Não me esperem acordados.







modernidade: não aceito.

Iluminismo. not.

Gosto de flores, whatever.

i do.

não foi crucificado à toa.

Lugar fantástico.

Igualdade de gênero

átomo construído em 1950.


Parque de Exposições